Hedjan C.S: uma entrevista de dar medo

Hedjan C.S: uma entrevista de dar medo

A entrevista desta semana está assustadora, daquelas de dar muito medo. Brincadeiras a parte, a conversa de hoje foi com o Hedjan C.S, escritor de suspense e terror. O pedagogo carioca se aventura nos gêneros que trazem uma dose de arrepio e horror que deixam todos amedrontados, mas também muito curiosos. Confira!

Leia também: Livros de terror que você precisa ler

SP – Primeiramente, um resumo sobre quem é Hedjan C.S (Onde nasceu, formação, o que faz, quais hobbies e etc)?

HCS – Nasci em 1978, no Rio de Janeiro. Me formei em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e sou pós-graduado em Educação Especial/Inclusiva. Sou servidor do Estado do Rio de Janeiro.

Hobbies eu tenho um monte. Leitura é um dos principais, mas também gosto de desenhar, fazer esculturas, miniaturas e mais um monte de coisas. Quando algum bloqueio de escrita aparece, me ocupar com coisas não relacionadas diretamente com a escrita acabam ajudando muito. Eu me foco em outra coisa, mas o cérebro acaba trabalhando em segundo plano.

Eu também gosto de contar histórias de pessoas comuns mas que possuem segredos perturbadores.

Hedjan C.S.

SP – Como e quando começou a escrever e quando percebeu que gostaria de ser um escritor?

HCS – Desde pequeno eu gostava de rabiscar histórias. Em 2010 eu escrevia bastante, mas ficava naquele esquema de “eu escrevo para mim”. Então foram cadernos e cadernos que acabaram dentro de uma caixa pegando poeira.

Só mesmo em 2015 eu tive coragem de mostrar alguns textos meus para algumas pessoas e no ano seguinte, mandei meu primeiro conto para uma seleção de coletânea. Ele foi aceito e estou aí escrevendo até hoje. Mas o engraçado é que, mesmo com contos sendo publicados, demorei um tempo para me convencer de que eu era realmente um escritor.

SP – Quais textos\livros possui publicados? Onde os leitores podem encontrar os exemplares para leitura?

HCS – Já participei de muitas coletâneas e publicações em revistas literárias digitais. Meu primeiro livro solo, o Gótico Suburbano, saiu pela editora Luva e pode ser encontrado no site deles.

Também tenho duas coletâneas solo na Amazon, o Preâmbulo Gótico e o Das Sombras. Meu primeiro roteiro de quadrinhos saiu na antologia VHS, organizada pelo Rodrigo Ramos e pelo Fernando Barone. São histórias de terror com aquela pegada dos filmes trash dos anos 80 e 90.

E, continuando nos quadrinhos, eu tenho um projeto chamado Subúrbio Zero. É uma série de Instacomics com o Caio Zero, um ilustrador muito fera aqui do Rio. São histórias de terror curtas e que eu garanto que vão arrepiar quem se atrever a procurar.

Além disso, tenho três textos gratuitos no site Yumpu. Tarde de Trabalho Atípica, O Fantasma da Loura do Banheiro do Ônibus e Bairro Estranho com Gente Esquisita. Dá pra ler e baixar o PDF a vontade.

Eu gosto muito de trabalhar com o “e se?”. Basicamente é pensar em uma situação comum e usar o “e se?”. E se eu estiver deitado na minha cama e começar a escutar um som estranho de arranhar vindo de debaixo dela?

Hedjan C.S.


SP – Como escritor de terror e suspense, quais são os autores desse estilo que te inspiram?

HCS – Apesar de ser um escritor de terror e suspense, eu tenho algumas influencias que fogem totalmente disso. Lima Barreto é um dos principais. Eu sempre gostei muito dessa preocupação das histórias dele em mostrar o cotidiano do subúrbio carioca, as relações, as práticas, as mazelas. Nas minhas histórias, também busco fazer isso. A diferença é que misturo esses temas com o medo, o suspense e o sobrenatural.

Já dentro do terror e do suspense, Stephen King, com certeza, especialmente os contos dele do início da carreira. Tinham uma pegada mais simples, histórias mais diretas ao ponto, na minha visão. O homem que vai ao banheiro e encontra um dedo na pia, o casal que acaba descobrindo uma cidade dominada por um culto organizado por crianças, um brinquedo de criança amaldiçoado, um porão de uma fábrica cheia de ratos mutantes.

E, apesar de não ser propriamente terror, Nelson Rodrigues também me influenciou muito, principalmente no que diz respeito ao lado menos bonito do ser humano e aos segredos sórdidos de família. Eu também gosto de contar histórias de pessoas comuns mas que possuem segredos perturbadores.

SP – No dia a dia, como funciona o teu processo de escrita? Você possui algum ritual específico, segue algum planejamento?

HCS – Eu gosto muito de trabalhar com o “e se?”. Basicamente é pensar em uma situação comum e usar o “e se?”. E se eu estiver deitado na minha cama e começar a escutar um som estranho de arranhar vindo de debaixo dela? E se minha cachorra fugir de casa pra perseguir um gato e, quando ela voltar, estiver trazendo um animal estranho preso nos dentes? E se eu ficar preso em um elevador e perceber que tem alguma coisa batendo no teto e tentando invadir a cabine.

Isso é mais ou menos o que o Neil Gaiman chama de “daydreaming”. Todos nós pensamos em uma situação e ficamos brincando com elas, com as possibilidades. Ele também diz que a diferença é que os escritores podem usar isso em suas histórias. Eu prefiro o termo “viajar na maionese”. Então, antes de sentar mesmo pra escrever a história, eu costumo viajar bastante na maionese, aumentando e expandindo essa situação de “e se?”. Quando a história vai pro papel, eu já tenho algumas ideias, mas em 90% das vezes, eu não sei como a história termina, só descubro conforme ela vai caminhando.

E quanto a escrever mesmo, eu não tenho nenhuma regra estabelecida. Pode ser em um caderno, uma folha avulsa, no notebook, no celular. Mas, depois que eu termino, aí sim já é mais ritualístico. Geralmente deixo a história descansar alguns dias e volta pra fazer a reescrita. Aí eu gosto de fazer de madrugada, quando todo mundo já está dormindo, porque posso prestar atenção na história sem distrações.

Fora isso, eu tenho vários caderninhos cheios de anotações. Sempre carrego um comigo, porque sempre tem alguém falando uma frase que serve para uma história ou contando um acontecimento que pode ser explorado. Acho que fazer essas anotações sobre nossas observações do mundo enriquecem muito as histórias que escrevemos.

É importante que o leitor se importe com o personagem que vai passar por toda aquela situação que você pensou. Por isso, outros gêneros ajudam muito quando você começa a definir quem é esse personagem.

Hedjan C.S.

SP – Qual a dica daria para novos autores que desejam se aventurar no gênero de terror e suspense?

HCS – Primeiro, leiam muito. Leiam muito terror, muito suspense. Mas também leiam romance, drama, comédia, hot, histórias em quadrinhos, todos os gêneros e formatos. Uma história de terror tem vários níveis. Você não consegue usar o terror ou suspense só pelo medo e pelo susto. É importante que o leitor se importe com o personagem que vai passar por toda aquela situação que você pensou. Por isso, outros gêneros ajudam muito quando você começa a definir quem é esse personagem.

E contem para o leitor o que assusta vocês, partilhem medos. Muita gente acha que quem escreve terror não tem medo de nada. Comigo é bem ao contrário. Algumas histórias que eu escrevo mostram muito das coisas que eu não gostaria de encontrar de jeito nenhum.

SP – Vi também que você é um dos editores de uma revista literária chamada SuburgenesY. Pode me contar um pouco mais sobre esse projeto? Como surgiu e como tem sido desenvolvido?

HCS– A ideia partiu de um convite do Marcelo Bizar, um escritor, editor e compositor aqui do Rio. Ele tinha pensado em uma publicação que falasse sobre e para o subúrbio e periferias do Rio de Janeiro, mas de uma maneira diferente. Queríamos explorar as histórias assustadoras, as possibilidades que a ficção científica oferecia, a fantasia, mas sempre utilizando esses cenários mais periféricos do Rio.

A SuburgenesY já tinha um número publicado, mas fizemos algumas modificações e lançamos o número 2 com autores que participaram de uma seleção. A edição ficou bem diversificada e tivemos muitos feedbacks positivos. A partir da revista, também montamos um podcast com autores e artistas que ajudam a manter a arte periférica do Rio de Janeiro em movimento.

Estamos preparando o número 3, que deve sair agora no segundo semestre de 2022. Os dois primeiros números estão disponíveis de graça. Acessando o perfil da Revista SuburgenesY no instagram dá pra saber mais.

SP – Algo que queira acrescentar ou algum novo projeto que queira divulgar?

HCS – Vou pedir pra quem é fã de terror e suspense ficar de olho. Eu e alguns amigos escritores e ilustradores estamos preparando algumas surpresas para esse segundo semestre de 2021.

Gostou do conteúdo? Compartilhe!

Share on facebook
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on twitter
Suelen de Paula

Suelen de Paula

Suelen é jornalista e escritora. Apaixonada por livros e séries, compartilha sua jornada Antes dos 30 anos pelo IG Literário @antesdos30_suh .

Este post tem 2 comentários

  1. Rosa Carvalho

    Parabéns, uma entrevista extraordinária, parabéns Hedjan, de uma amiga, bjs

  2. Hedjan é genial…
    Um dos grandes nomes do terror na atualidade!
    Não acredito que eu não conheço e nem li o “Das sombras” ainda!!! 😮

Deixe um comentário